Carta de Amor VII: Urbe Dance

FASE 1: Esperança & Inocência
Deixa-te ir, e se confiares em mim acordarás num lugar lindo.

Onde as cores e os cheiros são mais intensos.
Onde a terra vermelha te aquece os pés e te pinta o corpo, por dentro e por fora.
Onde a chuva te abraça e te embala.
Onde o pouco se transforma em muito e do nada surge a fartura.

Nesse lugar lindo tocas em gentes de carne e osso
e pulas com eles até tocar nas nuvens que pintam o azul dos céus.
E pulas tanto que cedes
e rebolas
e te sujas.
E os meninos como tu, riem-se,
despreocupados,
sem medo das taponas que inevitavelmente chegarão ao final do dia.

E corres como nunca antes o fizeste em busca da bola que te escapa,
do golo que te eleva à próxima árvore da tua infindável lista de coisas impossíveis a realizar enquanto acreditas que...
...a vida será para sempre.

E respiras.

E mergulhas no imenso azul que te leva às profundezas dos corais humanos
e retens o fôlego
e abres os olhos
e tudo é novo,
lento,
relaxante.

O teu peito aperta,
libertas o ar
e deixas-te ir com a corrente que te eleva à superfície.

Ao longe,
a casa onde te espera o beijo,
o abraço terno e carinhoso,
onde tudo acontecerá de outra forma...
mais adulta.

Lá buscarás o conforto do lar,
as palavras sábias dos teus pais,
o orgulho das aventuras contadas em palavras soltas muitas vezes imperceptíveis.

E adormeces.

E sonhas com monstros no escuro,
viagens ao infinito,
aventuras intermináveis.
E as tuas personagens têm três olhos,
são verdes, azuis, amarelas, multicolores
e correm e voam e nadam e cantam e choram e riem.

Depois sonhas um pouco mais.

Algures num qualquer recanto da tua memória recordas o dia em que foste pela primeira vez à Urbe.

Estava um dia de Sol.

Braço dado à mãe do teu mais que tudo,
trepaste colinas e viste monumentos.
Sentiste os cheiros da cidade,
ouviste os sons da sua gente,
subiste ao castelo.

Pelo caminho largaste o braço
e abraçaste o teu destino.

E juntos pulamos em sincronia
embalados pela sinfonia dos risos,
quais corpos em batida ritmada,
pé ante pé,
ali em plena luz do dia,
indiferentes aos olhares indiscretos dos urbanos,
exploramos novos caminhos
e baptizamos a nossa dança urbana com uma pitada de amor.

(...)

Lisboa, Portugal, 2000

in «10 Anos de Eternos Infinitos»
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