NOTA INICIAL:
Pedimos desculpa pelo atraso na publicação das Cartas & Ilustrações, mas afazeres profissionais e sobretudo o nascimento da mais bela de todas as Dálias (+ info) foram mais do que motivos de força maior. Esperamos agora, passado quase um mês do seu nascimento, voltar ao ritmo normal e recuperar o atraso.
Boas Viagens, Alfredo & Cipriano.
---
Fase 3: O Declínio
Eu sou o Vazio.
Em mim deposito a esperança do nada multiplicado ao infinito. Esse infinito de pequenas coisas, incontroláveis e desgastantes, que nos levam ao desespero... ao beco sem saída.
(...)
Lá do alto a Lua sorri, iluminando o céu estrelado com o seu Quarto "C"rescente "mentiroso". Ela pinta de "C"rença os sonhos, anima as noites mais gélidas e alia-se à madrugada na recepção entusiástica ao tímido Sol.
Com o seu "C" reflectido no profundo de nós, ela teima em dizer-nos aquilo que optamos por ignorar, tapando muitas vezes os olhos e afogando quase sempre a razão: é de "C"rença que vivem as relações. E elas, as relações, não são...
...mais do que meros "Saltos de Fé".
Algumas pessoas saltam mais depressa que outras, outras saltam mais do aquilo que acreditam. Depois há as que simplesmente saltam e ainda há as que, de tão empanturradas que estão de Fé, nem sequer chegam a saltar. Eu sempre temi saltar - não é de admirar, sempre tive medo de alturas; mas quando vi o teu olhar enigmático ao longe e o teu sorriso a roçar de leve nos meus olhos, soube logo que estava condenado a ser eternamente feliz ao teu lado.
(...)
Começamos sempre esperançados, cheios de vontade e promessas, retiramos da equação a realidade, o ego e o obscuro de cada um, acreditamos que o Amor tudo pode e tudo conquista e partimos de peito aberto rumo ao futuro incerto... ao "depois".
Suspiramos de prazer a cada toque ou lembrança de nós, vemos no espaço e nos reencontros oportunidades para materializarmos o desejo de sermos Uno e Indivisíveis. Brincamos e saltamos juntos, não concebendo um mundo que não seja o nosso recreio e onde nós não existamos. Cada sopro nosso é sagrado.
Embriagados pelo Amor, deixa-mo-nos levar pelo coração e vamos cedendo, lentamente, um pouco da nossa individualidade e liberdade - sacrifício menor, pois a causa maior é construirmos um outro EU, baptizado de NÓS. Coleccionamos Juras de Amor, projectos a dois... sonhando sermos, um dia, três ou mais.
Depois esgotamos as novidades dos corpos e das viagens para dentro e começamos a partilhar rotinas e espaços, até que estes se tornam num só espaço nosso, longe do mundo, onde o nosso Amor se pode refugiar e expandir.
De volta aos planos do "depois", acrescentamos Sonhos substituídos lentamente por objectivos e pelo discurso do "real". E a partir desse momento, apercebe-mo-nos do inevitável em que nos estamos a tornar.
(...)
Entrei de rompante na tua vida tentando possuir cada parte do teu corpo de um só fôlego, qual monstro guloso e infantil. Tu eras a infante. Juntos buscamos os "incertos" e as "novidades" de cada um. Estica-mo-nos para além das fronteiras, tocamos outros corpos, rebentamos à machadada preconceitos e forçamos medos.
Nessa busca incessante e autista do "nirvana", esquece-mo-nos de olhar em redor e para dentro do obscuro de cada um de nós. Eu não parei para descansar e recuperar energias. Continuei a forçar o destino e, com isso, forcei-te a ti. Tu rebentaste e contigo veio o caos emocional, a dor e a bipolaridade que tanto te esforças por esconder do resto do mundo. Na tua duplicidade, durante anos confundida por mim com infantilidade, foste esgotando a tua crença em mim e pelo caminho foste esgotando-me a mim.
Enquanto tentávamos "mudar o mundo", o meu, o teu, o nosso, o dos outros e o de todos, fui perdendo pedaços de mim. Pedaços esses que precisei mais tarde, e não tive, para colar os que se foram estilhaçando lentamente do "Nós" Uno e Indivisível.
E foi já na minha "grande depressão" que me apercebi, tarde de mais, que para concretizarmos o inevitável de "Nós", para mudarmos o mundo, alimentarmos o meu "ego" e coabitarmos com a tua duplicidade, seria preciso o super-homem que eu um dia fui. Mas nesse "agora" de mim, só tínhamos as promessas acumuladas e em dívida, os projectos falhados, a energia finita, a presença anémica e descrente... a amostra de homem que somente te "possuía o corpo e não a alma".
(...)
Certo dia acordaste, olhaste para mim e viste o reflexo do Vazio, o nada, o precipício e quiseste partir. Nesse preciso momento, o "Nós" viu escrito, a sangue, a sua sentença derradeira.
Viana do Castelo, Portugal, Algures Perdidos Entre 1999 e 2003
in «10 Anos de Eternos Infinitos»
merakian/10 © Todos os direitos reservados.




0 comentário(s):
Enviar um comentário