Os nossos corpos entrelaçam-se em câmara lenta e adormecemos.
Com as minhas cuecas húmidas limpo o sémen que escorre lentamente pelo seu rabo frio tentando não despertá-la do estado de sonolência em que se encontra. Procuro também transportar-me para lá, pois a vergonha de não ter conseguido não querer explodir dentro dela tem de morrer antes que o Sol nasça.
E foi assim a (nossa) última viagem ao profundo dos nossos corpos: crua, fria e vergonhosa; um acto de puro egoísmo... o meu.
(...)
A noite presta-se a acabar, abrimos a porta de casa, exaustos, e entramos.
Lá fora ficam as memórias de mais uma madrugada intensa, salpicada de odores diversos. Ainda sinto no muco o sabor do...
...mar, das bifanas, do suor dos corpos roçados e excitados ao ritmo do kizomba, do nosso beijo apaixonado, da minha mais solene promessa e da maior de todas as ilusões aos olhos do mundo - almas gémeas unas e indivisíveis.
...mar, das bifanas, do suor dos corpos roçados e excitados ao ritmo do kizomba, do nosso beijo apaixonado, da minha mais solene promessa e da maior de todas as ilusões aos olhos do mundo - almas gémeas unas e indivisíveis.
É verdade que os Deuses também se abatem, mas também é verdade que por detrás de cada máscara de pele existe um super-homem que sustenta o seu heroísmo na esperança e que, não raras vezes, de peito aberto grita de voz em riste palavras de coragem que ecoam até aos nossos tempos: «Jamais te perderei para o lado negro e sombrio da vida. Eu não vou desistir... nunca.»
E o beijo mais uma vez.
(...)
Meia-noite. O expresso chega. Ela desce. Tudo parece como sempre foi - normal.
(...)
O som inquietante de uma mensagem a chegar, a dúvida que se transforma em curiosidade, os dedos que escavacam as teclas, os olhos que se focam no écran, o corpo que começa a tremer a cada sílaba que o cérebro processa, o espanto transformado em choque, este disfarçado de dor e raiva, a violência que em todo o seu esplendor assume finalmente o comando do meu corpo e o atira contra a parede do mais profundo dos abismos. E eu caindo desamparado vejo-te ao meu lado, ausente. Estico o braço, abro as mãos e tu viras-te. Todo o peso da gravidade se abate sobre mim, esborrachando-me na solidão, vazio, traído.
Quando temos um corpo que não obedece à mente e o mundo a quem eu ofereci o meu coração e no qual depositei o mais valioso de mim se demarca, quando na mais profunda de todas as dores nos sentimos sós, abandonados e traídos... aí sabemos que tudo acabou e que a vida tal como a concebemos naquele preciso momento, jamais voltará a ser a mesma.
E banhado em sangue, suor e lágrimas... despeço-me de vez da inocência e subscrevo-me com elevada consideração e estima.
Viana do Castelo, Portugal, Sexta-feira, 31 de Outubro de 2003
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