Era uma vez um homem e uma mulher, a mulher do marido, e o marido da mulher.
Certo dia acordaram lado a lado e por telepatia perguntaram: «quem és tu?!»
Como o fizeram ao mesmo tempo, abafaram o eco das suas vozes e calaram-se para sempre.
Procuro nas ondas da Internet a solução para o nosso dilema.
No buraco negro da solidão onde me enterrei escuto vozes que não as minhas. Procuro o teu doce canto, os teus gritos de pulmão em "riste", os teus gestos histéricos de quem deseja despertar para a vida, em vão. Tenho medo do escuro, incomoda-me. Sem ti tudo parece sem sentido. Foste parte de mim, levas-te contigo quase tudo de mim. Continuo à procura da luz, da salvação. Nunca pensei que a dor e o sofrimento fossem preferíveis à solidão. Estava enganado.
Hoje troco o prazer e a felicidade por um berro teu.
Onde estás? Será que o conseguiste ver? Será que o convenceste a visitar-te? A dormir contigo? A aquecer-te nesta noite gélida e triste?
Escrevo sem parar...
Hoje por ti, escreverei um best-seller. Só pararei quando não conseguir manter os olhos abertos ou não tiver forças nos dedos. A tua imagem que projecto na minha mente far-me-à companhia. Dorme bem. Eu empreenderei esta aventura sozinho.
Busco a verdade.
Como posso encontrá-la se tu te fechas num mundo demasiado abstracto e autista? Numa realidade que viola toda a lógica humana e corrompe as minhas crenças mais profundas? Devo assassinar o meu "eu" para que finalmente me possas possuir em definitivo?
Quem me dera poder entrar nos teus sonhos. Nos teus medos. Desisto.
Parto na esperança de um futuro que não existe, impossível. Parto de coração aberto, indefeso. Sonho com mundos pintados de amor e carinho, onde pulo de alegria e me expresso livremente, onde cada palavra minha não seja uma ameaça mas um gesto de aproximação.
Hoje, infelizmente, meço tudo o que digo, mesmo quando escrevo na tentativa de quebrar a barreira do som, da luz e do teu coração. Obrigaste-me a calcular todos os meus passos, a pragmatizar a humanidade, a vida. Envelheci sem dar por isso, sugaste-me a energia que outrora jorrava incessantemente de dentro de mim. Tu foste a última, de curta, mas nobre e poderosa linhagem de mulheres que me vergaram ao poder da "ilógica abstracção".
Penso em ti a cada segundo que passa, a cada tecla que primo. A tua presença tornou-se constante, incómoda, mas ao mesmo tempo a minha única razão de ser e de viver.
Imagino-te nos labirintos do teu prazer, do teu desejo mais profundo, procurando por ele. Imagino o teu coração lento, e depois mais rápido e mais rápido e mais rápido... e não sei se o chegaste a alcançar. Imagino-te deitada. Só isso.
Continuo sem querer parar. Tudo o que eu quero é que me oiças, que me compreendas.
O gozo que me tornei nas mãos de uma criança. Usado e abusado. Deitado fora. Acorrentado nos dedos de uma simples e inconsciente mente. Lembro-me dos teus beijos, do teu forte abraço sem força, da tua pele de bebé, do teu calor amaciado. Lembro-me de ti.
Não sei porque acreditas na mentira. Não sei porque te vendes tão facilmente à maldade, sabendo que um dia tudo acabará mal. Não sei.
No profundo horror da minha ferida enceto uma viagem de regresso às origens, ao mundo que por breves instantes conheceste. Comigo levo apenas a certeza de que não voltarei atrás. Sabes onde me encontrar.
Para onde me dirijo as pessoas gostam uma das outras, tudo é transparente e justo. Elas sabem pedir desculpa e agradecer. Elas gostam de partilhar sem falsas modéstias e falsas bondades. Elas vivem e deixam viver. Elas amam. Querem bem, abraçam o mundo ao invés de o repelirem. Adoram viver em comunidade. Não fogem às responsabilidades. Não se refugiam em falsas questões. Não dizem liberdade quando querem dizer estou farta e não gosto. Não falam de vontade ou falta dela quando não têm coragem de dizer «acabou». Não trocam o bem pelo mal. Não se prostituem em troca de concordância, quase sempre falsa. São coerentes e não têm dois pesos e duas medidas. Falam de vida, da existência, de um ser superior ou não, de magia, sedução, cumplicidade. Contam histórias de grandes feitos, da bondade humana, da humanidade. Protegem os seus... protegem os seus... protegem os seus.
Caminho devagar para esse mundo, em breve chegarei lá. Peço a todos que me compreendam. Peço a quem em mim depositou alguma esperança que não desista agora. Não agora que estou tão perto do fim. Se tiver de morrer ou acabar, que seja com estilo, infinitas medidas dele. Eu sempre fui assim, de novo o voltarei a ser ou não seria eu quem sou e tu a promessa de uma deusa da sedução.
Hás-de fazer amor comigo, de novo. Porque quererás e sem medos. Porque acreditarás ser a única forma de tudo acabar, para que finalmente possamos começar de novo. Os meus olhos perder-se-ão outra vez nos teus.
Estou confuso, cansado, à beira da derradeira humilhação, mas são estes os momentos em que se definem os Homens, se separa o trigo do joio e se tomam as grandes decisões. Eu não sairei a perder, como se existisse derrota ou vitória!
Ao materialismo onde procuras a justificação da tua medíocre existência, contraporei o idealismo. O idealismo que me manterá vivo neste combate mortal. Em que tu terás de morrer para dares vida à um "nós", comigo ou "sem migo". Porque "eles", os que virão depois do amor, da cópula e a quem darás nomes de príncipes e princesas, não poderão viver do egoísmo, do mal, da dor e do sofrimento, tal como tu viveste. Terão de ser amados, pois serão sangue do teu sangue, carne da tua carne. E eles não vivem de cadeiras, mesas, televisões e casas. Vivem de amor e carinho, protecção e segurança, compreensão e disciplina. Tudo o que te escapou por pouco, ao longo de tantas eternidades que juntos passamos.
Pena já não haver a pena. Com ela o papel teria mais valor. As palavras teriam mais valor. A mensagem seria mais profunda, rica, pensada. Sem ela tudo flui sem destino, no tal pulsar incessante em que nos enleamos e nos deixamos levar que corrompe a vida. A transparência é manchada pelo facilitismo. Dói menos e é mais rápido.
Iniciei uma espiral de dor e sofrimento sem fim à vista. Percorro os caminhos do purgatório, da purga. Arrasto a minha cruz por caminhos enlameados. Ao meu lado o mal, do outro o bem. Nas pedras, na terra, na areia, no chão selvagem, jaz o que resta da cumplicidade, da camaradagem e com eles a memória de um único gesto de solidariedade que não existiu. Fui humilhado, maltratado, atirado ao mais profundo esgoto da humanidade e como "presente" o sonho irónico de uma amizade mais forte, um projecto conjunto e mais noites juntos...
Será que desta vez me ameaçam de morte... e cumprem?
Pois a dor física, a dor psicológica e a promessa já não chegam. Era este o fim de que estávamos à espera? Será talvez o mais perfeito de todos os fins, pois se de um ser quase autista, eu despertei um monstro e por causa dele me transformei num, mais do que merecido é este fim. O monstro vinga-se.
Como me lamento a cada segundo que passa. Porque não desisto? Porque por detrás da pele grossa e mal cheirosa do monstro existe um anjo. Uma doce princesa, inocente. Que nada faz por maldade. É apenas criança. Uma princesa que me desperta, por um lado, os mais nobres sentimentos, por outro, as mais cruas das amarguras.
(...)
Lá fora já cantam os pássaros como que anunciando a boa nova de mais um fantástico dia e com ele chega o Sol para te despertar.
E porque eu prefiro estar a dormir e somente acordar quando te deitares, vou saciar a fome, esperar-te à porta, dar-te um beijo de bom dia, nem que seja virtual, entregar-te esta extensa confissão, nem que seja por telepatia, e algures entre o purgatório e a salvação, adormecer sonhando contigo.
Viana Do Castelo, Portugal, 18 De Novembro De 2004
in «10 Anos de Eternos Infinitos»
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