Carta de Amor II: «Ignorare».

«
E num abraço do tamanho do tempo,
fui ressuscitar-me ao profundo de mim,
percorri de peito aberto os insondáveis labirintos das emoções,
esgotei todas as razões
e assiste por dentro ao desenrolar da tragédia humana.
»
in Memórias do Exílio


Se um dia os meus lábios se cruzassem com a coragem e a minha boca se enchesse de sons e de dentro saíssem mais do que meros suspiros teria tanto para te contar.

Mas como o dia tarda em chegar, e eu busco-te por entre teorias e alquimias, fazendo depender do sucesso desta demanda a felicidade de toda uma vida, tenho pressa e vou começar assim:

Olá meu anjo,

O estranho que te bebe lentamente com os olhos e se embriaga com os teus odores adocicados sou eu, chamo-me Alfredo.

Desde há longa data que só me é permitido amar-te à distância segura de um pensamento, essa mesma distância que te protege de mim e me mantém seguro de ti.

Mas nem assim, a anos luz de ti, no reverso dos teus sentimentos, eu consigo acalmar os fantasmas que me atormentam no imenso escuro que inunda os quartos em que me enclausuro.

Tentei comprar a minha paz vendendo histórias de encantar, em vão. Coleccionei experiências, viajando pel'almas, tocando cada espaço infinito dos sentimentos humanos, mas isso também foi em vão.

Por fim, não o do tempo, mas o das tentativas frustradas, tentei ignorar-te arrancando de mim cada pedaço de ti. Sofri, chorei, sangrei e mais uma vez em vão.

(...)

Estava sol naquela tarde de Domingo.

A vida embelezou-se, saiu à rua e foi deleitar-se no mar salgado.

No areal saltitavam as bolas e rebolavam os corpos. As mãos embaladas pelas ondas dançavam cerimoniais sobre as peles tostadas. Nos lábios molhados estava pintado o desejo como que antevendo o que a Lua mais tarde concerteza testemunhou em silêncio.

Também eu fui testemunha silenciosa da sua cumplicidade e no voyerismo involuntário encontrei a resposta, os meus olhos brilharam, o meu coração acalmou o seu pulsar, o mundo em meu redor começou a viajar em câmara lenta, o estímulo transformou-se em ideia e depois em sons apalavrados que se tornaram na verdade.

O que realmente me atormenta não é saber que tu existes, não é a distância e nem sequer a nossa história deturpada pelos teus lábios.

O que realmente me atormenta é não saber de ti, é não poder partilhar contigo as experiências que coleccionei, as vidas que vivi, as pessoas que conheci.

O que realmente me atormenta é não conhecer a tua outra vida, é não poder rir e chorar contigo e beber as tuas emoções inconstantes. É não te poder dizer o que sinto a cada momento vivido por nós em separado, o quanto orgulhoso estou por não teres desistido e teres tido a coragem de viver.

É não te poder dizer, olhos nos olhos, que cumpri a promessa que te fiz no tempo em que ainda o contávamos juntos.

E é essa impotência que me atormenta, aquilo que em tempos os gregos chamaram de nostalgie e os romanos declinaram para ignorare.

(...)

A cada palavra reflexo de um toque transformado em sentimento, rimas de uma vida, ao dom inato que me arrebata e me leva ao precipício das lágrimas, ora de dor e sofrimento, ora de rejubilo e alegria, junto o meu espanto e alisto-me no vasto exército fanático que bebe lentamente cada sílaba, cada pontuação de ti.

Às palavras de ordem do povo que mais ordena, no meio da eterna batalha entre o capital e a máquina humana que o suporta, tu entre classes que se querem únicas e universais, junto o bradar das vozes que silenciosamente se orgulham da coragem que te incendeia o coração.

Às emoções cantadas pela voz de um anjo autista, como que acordes que esticam cada poro do meu corpo, imagino distante tudo o que me privei há demasiadas alternâncias de Sol e Lua. Ainda sinto o vibrar do som a propagar-se pelo ar, o estremecer dos corpos enfeitiçados, cada tom de vermelho pintado na tua face, expressão dos sonhos que anseias projectar naqueles que te olham da plateia, ignorando tempos outros em que era eu que me sentava na primeira e única fila do nosso leito, idolatrando-te.

(...)

Ignoro a dor, o sofrimento, as derrotas que não partilhamos, o ombro que faltou, as lágrimas que não te consegui enxugar.

Ignoro os teus amores e desventuras, os corações trepidantes e os mil pedaços dos que se partiram.

Ignoro o tempo que conspira contra a minha vontade de voltar.

Abraço a depressão, torno-a minha companheira e saio vencedor.

Enrolo o metal no dedo e juro eterna fidelidade à vida.

Choro por não estar a seu lado no seu primeiro sopro, seguro-a nos braços e vejo-me no reflexo de si, sangue do meu sangue, torna-se princesa e conquista de assalto os nossos corações.

E viajo para todo o lado e os bancos que me aconchegam tornam-se no meu último refúgio. De lá dito as leis que definem o meu mundo, conquisto corações e colecciono experiências.

Então a vida, aliando-se ao tempo, assume o comando, atira-me ao chão e torna-me adulto.

Acorrentado ao real, aprendo a amar, vivo nas urgências, interno-me na razão e de dois salvo apenas um. Choro na despedida, recordo a vida e imortalizo-a no meu coração.

Indiferente à tragédia humana, a conspiração continua impávida e serena. Conta o tempo, soma-lhe semanas e depois meses, 4 anos passam.

Ténue já é também a memória do meu último beijo.

Lá fora conto, uma vez mais e em vão, as árvores da minha vida. Cá dentro, os segundos teimam em passar. Na paragem que marca o fim de mais uma viagem aguarda-me o destino. Escolhi o dia, o onde e o quem. Conspirei contra o tempo e enterrei de vez a vontade de voltar.

Hoje, 4 anos e meio depois, voltarei aos braços de uma mulher e o beijo... inevitavelmente acontecerá.

Rumando a Coimbra, Portugal, 19 De Março De 2008

merakian/10 © Todos os direitos reservados.

5 comentário(s):

Quimbango disse...

sublime!

Alfredo Abambres disse...

Obrigado Timóteo.

Julgo que depois das ilustrações do Cipriano e do puxão de orelhas que me deram na Carta I, vocês já mereciam um pouco mais de mim :)

Espero continuar a superar-me a e superar as vossas expectativas

Boas Viagens ;)

Cipriano Oquiniame disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Cipriano Oquiniame disse...

Pessoal, não se esqueçam que estas ilustrações são o reflexo das poderosas Cartas de Amor do Alfredo, pois os resultados aqui apresentados dependerão sempre da grande inspiração obtida através delas. O que farias por amor!? Ehehehe

Palmira Abambres Pereira disse...

Escorreu pelo meu rosto sem pedir licença... mas repleta de amor...

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