Carta de Amor I: Em Busca de Paz

Há vários anos que procuramos.

Desapareceu algures no longínquo tempo das memórias remanescentes e sem deixar rasto "obliviou-se" das nossas vidas.

Existem muitas teorias que tentam explicar o misterioso desaparecimento e acalmar os fantasmas da nossa consciência.

As mais óbvias são também as mais comuns no caso de desaparecimentos tão prolongados ou mesmo permanentes.

A primeira tenta convencer-nos de que se juntou, mais cedo do que humanamente desejávamos, à longa lista de entes queridos, algures num paraíso etéreo.

A segunda afirma que esse ser tão especial foi fruto da imaginação colectiva de uma geração ou mesmo de um qualquer louco autista e...
...sem pés que assentem num qualquer pedaço de terra. E parece que há cada vez mais adeptos desta teoria.

É simples.

Alguém tão poderoso e simultaneamente tão frágil, capaz de vulgarizar super-homens e subjugar mundos, só pode ser resultado de mentes desprendidas do real que teimam em viver no engano.

Estou quase a deixar-me convencer por esta corrente de pensamento... quase.

Mas o quase não chega para me apaziguar a alma e contentar os fantasmas, o quase não me deixa adormecer em silêncio, o quase não me completa. Por isso teimo em não deixar que o mundo, nem que seja o mundo de um, pare de procurar, porque enquanto houver luz na esperança e eu conseguir ver um caminho, tu serás real. E tal como nunca abandonamos um filho que nos é arrebatado do berço sem permissão, tu és parte de mim e sem ti o meu círculo não se fecha. Por isso, devo-o a mim próprio a profunda e desesperante obrigação de te procurar nem que isso me leve ao mais profundo e escuro dos abismos ou mesmo aos confins mais longínquos do inferno.

E depois existem outras teorias.

Algumas afirmam que foi raptada por pequenos seres esverdeados de passagem por este calhau - e conheço alguns que são capazes de jurar e morrer por esta "verdade".

Uma das minhas preferidas começa assim:

Sentindo que um ser tão magnífico não podia ser só de um, e que mais cedo ou mais tarde ele "esvoaçaria" para bem longe do alcance do meu abraço, eu concebi a maior de todas as ilusões.

Construí um baú de memórias, visível somente aos olhos de quem o desejava possuir, arrebatei o ser, e qual toque de Midas, suguei-lhe a alma, o espírito e tudo o que de magnífico ele tinha, trancando-o a mil chaves no mais profundo de mim, onde só eu consigo chegar. E para completar a maior de todas as ilusões, libertei o "corpo" vazio de conteúdo, desprendido da nobreza e do toque imaculado e deixei-o deambular por aí.

Enquanto uns se entretêm a procurar uma forma de entrar no meu baú mágico, outros tantos continuam a preferir jogar com as palavras.

Era uma vez um anjo imaculado, desprovido de maldade, inocente, de sorriso tão doce que nos aquecia a alma e deleitava o paladar dos olhos, que certo dia, cansado de viver no pedestal, desceu à "cidade dos homens".

Porque abandonou ele a "cidade dos anjos"?!

Na redoma de cristal, onde tudo é perfeito e se vive dentro de um "plano", não existe realmente vida, apenas representação de uma vida. E ele desejou ser mais do que um mero joguete no plano de alguém.

Desceu aos humanos e fez-se mulher.

Afirmam os defensores desta teoria que a nossa incapacidade de vermos a "mulher" deve-se ao facto de que algures nessa transfiguração não fomos capazes de converter os olhos da memória e os actualizar.

E depois há os que acreditam no inverso, ou melhor, no processo inverso.

Ao tal Anjo imaculado, por ser tão perfeito, foi-lhe dado a maior de todas as honras: descer ao mundo dos humanos e disfarçar-se de "mulher" para que pudesse observar-nos mais de perto, por dentro, esperando por um qualquer momento em que a verdadeira intenção da sua visita nos possa ser revelada.

Existe algures, invisível, omnipresente, um plano que tece a sua teia e que nos une a todos num propósito que ainda não nos é permitido conhecer e onde ela é a maior de todas as mensageiras. Talvez por isso lhe tenha sido permitido encarnar no corpo de uma mulher e escolher o imaculado nome.

E por fim existe a teoria que define a vida. Talvez seja mais correcto dizer que define uma das mais veneradas expressões humanas: "É a vida!".

E foi a vida que me arrebatou e me fez perder nos seus olhos.
E foi a vida que nos levou a crescer juntos, transformarmo-nos em adultos e depois em estranhos.
E foi a vida que fez dela a maior de todas as minhas "professoras" e que fez de mim o caminho da sua transformação.
E foi a vida que nos encarou, olhos nos olhos, e nos disse que era tempo de voarmos separados pois a nossa missão a dois já tinha terminado.
E foi a vida que me arrebatou dos braços a minha "mais que tudo", não me dando a hipótese de realizar o meu último e mais profundo desejo: despedir-me dela.

Mas foi também a vida que me ensinou que tudo tem um sentido mais profundo e que talvez ainda não fosse aquele o tempo certo para dizer "adeus" e que as nossas vidas estivessem predestinadas a cumprir uma ultima missão.

E hoje, 10 anos volvidos, nos tenha sido dada finalmente a oportunidade, de olhos nos olhos, ligados pelos Eternos Infinitos, partir em paz.

Algures Perdido Pelo Mundo, 4 De Fevereiro De 2009

in «10 Anos de Eternos Infinitos»
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